Desperto [Conto]
Conto curto número um
1.
Voltava a pé, ele lembrava. O caminho vazio da madrugada se esticava no concreto escuro das ruas por onde ele passava. O ar fresco empurrava o som oco. O único barulho que centelhava no silêncio era o ranger da cadeira de plástico que oscilava na respiração do sono do único funcionário do posto de gasolina vinte e quatro horas.
O boné com as cores do posto era pequeno para a cabeça enorme do homem que dormia num sono sem culpa. A cadeira branca estava curvada com o peso do corpo jogado contra o encosto. A falta de apoio para os braços era resolvido numa improvisada e confortável pose de braços cruzados. A boca estava entreaberta, mas o homem respirava pelo nariz.
Na cama, Antônio se cobriu. Aquela imagem romântica lhe embalou o sono. O funcionário do posto respirava pelo nariz.
2.
Despertou curto. A folha fina da realidade se abria lenta, enquanto o sono ainda tomava a mente. Houve incerteza de qual era qual, mas essa já lhe chegou morna, num calor agradável. Disse que já iria, pensou. Reajeitou o corpo depois que o incomodo tímido se distanciou até fundir-se ao silêncio.
3.
Acordou. Ainda sem movimento na rua escura. Ele dormia gostoso, mas dormia pouco. Era traído pelo sono, que o envolvia num relaxamento sem descanso. Sua avó lhe dizia que dormir bem era pecado porque Deus criou os homens para descansar no paraíso. Ele não via problema em um descanso aqui ou ali de vez enquanto, e não via pecado naquilo, só que direto não conseguia dormir completo.
Homem que trabalha direito precisa dormir direito, seu pai dizia. Mas o pai morreu mais cedo que a avó, que ele visitava aos domingos. Gente velha sabe das coisas, dizia a avó, sem titubear nem nada. Gente que dorme muito se apaixona pela morte, só é vivo quem tá desperto.
4.
Se conformou com estar acordado, e sentou no silêncio da noite que durava mais do que o relógio. Noite sem lua e sem estrela. Ele achava certo. Preferiam passar tempo na roça, estavam certas elas. Sentiu falta da roça. Nos tempos de menino jogava bola no chão de terra que não importa quanto sol estava, custava a queimar a sola do pé. No concreto o chão encerra o jogo, ele pensou. Quem jogava ainda devia ser Juninho, que prometia ser jogador. Juninho era volante, que posição merda, deveria pensar, pensou ele.
Juninho foi pro interior de outro estado debaixo da asa de um empresário que usava terno no calor. A asa do empresário era curta, ele voou baixinho, e em pouco tempo Juninho voltou pra roça. Voltou triste e não dava trela pra ninguém. Dizia que ia voltar rico. Passou a ir na cidade roubar sacola de loja importante pra pagar de graúdo passeando pelo bar e na frente da igreja.
Nessa mentira engravidou a filha do padeiro que tinha sonho de tirar foto com produto que davam grátis e sem estar estragado. Eles chisparam depois disso, com o peso de ser pai Juninho perdeu a marra a virou trabalhador de Uber. Dizia que ia voltar rico.
5.
Um carro passou lá longe tentando incomodar a memória dos antigos amigos. Seria legal ver o Juninho na televisão quebrando algum atacante famoso, a imagem tomou forma na sua mente. O som do motor se aproximava na rua, diminuindo a velocidade. Até que o carro fez a curva e entrou no posto. Na parte baixa do para-brisa vinha uma luminosa placa escrita Uber. Marcos quis muito que fosse Juninho, e escutou a voz grave do amigo o chamando de Marquinho, pensou. Não era. Era outro homem que sofreu pra abaixar a manivela emperrada do vidro, e com voz cansada lhe pediu para colocar 40 reais de gasolina.
Antônio dormiria até ser acordado pela mãe que preparou o café.

