09. Notas (I)
Ou: O cineasta não é apenas um intelectual: entre Glauber Rocha e Mazzaropi
Este é o começo de uma série involuntária do Substack, reunindo algumas das notas que venho publicando por aqui. Comecei esta newsletter movido pelo desejo de divulgar o cinema brasileiro com seriedade — e gosto de acreditar que permaneci fiel a esse propósito.
A verdade é que tenho concentrado esses esforços nos “Notes” do Substack, justamente por permitirem investidas mais breves e menos formais, o que favorece uma frequência de publicação mais constante. Também é verdade que 2026 tem sido um ano particularmente corrido, e os textos mais longos parecem escapar entre os dedos — embora jamais saiam do horizonte. As publicações numeradas, de maior fôlego, continuam sendo uma das formas de escrita de que mais gosto e devem retornar em breve.
Hoje reúno algumas dessas notas, ao lado de outras que jamais chegaram a ver a luz do dia, em benefício daqueles que já me acompanham com alguma frequência.
I. O coquetel entre Mazzaropi e Glauber Rocha
Entre minhas leituras, duas citações sobre o astro cômico Amácio Mazzaropi chamaram particularmente minha atenção. Não irei desenvolver pensamento sobre elas (ainda):
Jean-Claude Bernardet (1968):
O coquetel Glauber Rocha-Mazzaropi não tem futuro.
Já Paulo Emílio Sales Gomes (1973):
O que perde Mazzaropi são os cineastas. Os melhores, ao que eu saiba, nunca o procuraram e o ator certamente fareja neles o veneno de bilheteria que muitos são.
II. Lentidão como Condição — sobre O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
Acabei de reler esse artigo fantástico do Noël Simsolo sobre O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) do Glauber. Está disponível na Foco, com tradução do André Barcellos.
Em algum momento Simsolo chama atenção para a lentidão movimentos de câmera. O que ele não traz à tona, por não saber ou por não achar necessário destacar, é que a lentidão dos movimentos responde à uma condição material.
Em 1968, em Berlim, Glauber conversou com Straub, e o tema central foi o plano-sequência. Ainda naquele ano, tentou exercitar essa concepção em Câncer, filmado em uma Éclair de 16mm que permitia planos de até 12 minutos. O projeto original previa 27 planos longos, com os atores improvisando situações em torno do tema violência. Câncer é montado só em 1972, se diferenciando um pouco desta ideia inicial.
Já em Dragão da Maldade, Glauber tem sua primeira experiência filmando com som direto. Com um equipamento super pesado, e depois da experiência em Câncer, ele ensejou o estilo do movimento lento. É claro que Glauber, sendo quem foi, assumiu o estilo, o encarnou na encenação de forma brilhante. Mas me parece que a lentidão dos movimentos foi antes uma resposta às condições materiais impostas pelo aparato técnico, do que uma escolha inicial. E é nesse momento em que Glauber se revela um diretor genial.
Para nível de comparação, tem uma história que circula sobre um diretor da época que acho bem sintomática: Paulo Thiago estabeleceu um enquadramento para um filme, mas ficou incomodado com uma árvore na imagem. Em vez de repensar ou rearticular o enquadramento, ele decidiu mandar derrubar a árvore.
O cinema brasileiro já produziu análises estéticas brilhantes. Mas me interessa igualmente investigar a história concreta que condiciona e dialetiza as escolhas formais — compreender como técnica, circunstância e invenção se entrelaçam na constituição do estilo.
PS: O Eduardo Savella contribuiu com esse texto, informando que parte dessa lentidão também se devia ao peso da câmera blimpada, que chegava a cerca de 60 kg. A informação lhe foi passada por André Faria, integrante da equipe de fotografia, e um dos fundadores do curso de cinema da UNESPAR, onde Savella o conheceu.
III. “O cineasta não pode ser somente um intelectual”
Em uma entrevista de 1969, ano de lançamento de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Glauber Rocha afirma que haveria dois caminhos possíveis para um cineasta: de um lado, a produção experimental e alternativa em 16 mm — como Câncer (1972) —; de outro, a realização de um cinema de maior escala, capaz de alcançar o circuito exibidor e um público mais amplo. Isso, porém, acarreta em certos prejuízos.
Se [o cineasta] quiser fazer testemunhos pessoais, experiências estéticas ou políticas, que rode em 16mm; porque se quiser entrar no mercado de 35mm, tem que sofrer os prejuízos inevitáveis disto[…] O cineasta tem que ser homem prático, produtor distribuidor, não pode ser somente intelectual.
É interessante observar esses termos formulados dessa maneira, sobretudo porque um dos principais ideólogos do Cinema Novo, Gustavo Dahl, já apontava em 1966 que o movimento se encontrava em uma encruzilhada. Segundo ele, começavam a surgir filmes ligados ao movimento que buscavam deliberadamente uma aproximação maior com o público, superando a “lentidão exasperante” do cinema brasileiro e trazendo para a tela sentimentos menos abstratos. No entanto, essa escolha implicava também a possível diluição da substância ideológica das obras.
No fim da década de 1960 o Cinema Novo busca ampliação de público para além da classe média intelectualizada, por vários fatores — falta de acesso mais amplo aos recursos do Estado, interrupção dos investimentos da burguesia nacionalista, fim das ilusões do mercado externo (Autran, 2013, p. 318). Isso acarreta na tomada de uma posição, que parece ser sustentada por Glauber: escolher entre a consolidação econômica da prática cinematográfica ou aprofundamento das investigações estéticas dos filmes. Glauber parece tatear em busca de uma solução (?)
IV. Glauber integralista?
Entre 1954 e 1957, ainda adolescente, Glauber Rocha integrou o Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA), em Salvador, então considerado uma célula da juventude integralista. Foi por intermédio do integralista Germano Machado que Glauber obteve seu primeiro emprego na Rádio Excelsior, onde apresentou o programa Cinema em close-up, título que mais tarde seria retomado como nome da revista de cinema da Boca do lixo.
A interpretação dos integralistas em relação à Glauber é curiosa, o lendo como um grande nacionalista que nunca foi de fato comunista. Felizmente Glauber teve uma virada radical à esquerda, o que não impede interpretações simplesmente delirantes por parte dos integralistas, que veem A idade da Terra (1980) como uma exaltação do golpe militar-empresarial de 1964. Existe, acreditem se quiser, uma tentativa de cooptação de Glauber Rocha por setores do integralismo até hoje.
Se os integralistas não interpretam Glauber como comunista, essa não era a visão do próprio governo militar. Veio a público, através da Comissão da Verdade, um relatório confidencial da Aeronáutica brasileira contendo uma ficha sobre Glauber Rocha na qual se lia: “Seus desejos são de um comunista convicto a serviço do imperialismo soviético. Demonstra que usou e abusou do cinema brasileiro, do qual recebeu auxílios e incentivos, em prol da revolução comunista”.
Segundo o documento de 1971 — embora Glauber Rocha só viesse a falecer em 1981 — ele teria sido registrado como “morto”, o que tem sido interpretado como um indício de que poderia estar na lista de alvos da ditadura, popularmente conhecido como “marcado para morrer”. Nesse mesmo ano, ele deixa o país e inicia seu exílio.
Em 1974, ao cogitar seu retorno ao Brasil com a chegada de Geisel ao poder, Glauber escreve um texto bastante controverso, por ocasião dos dez anos do golpe de 1964. Nele, afirma: “Estou certo inclusive que os militares são os legítimos representantes do povo”. O texto se encerra com a frase: “Força total para a Embrafilme. Ordem e Progresso.” A Embrafilme, que em 1974 passaria a ser presidida por Roberto Farias, tendo Gustavo Dahl como seu braço direito, na superintendência de comercialização. Dois cineastas ligados ao Cinema Novo. Não faço aqui relações diretas, mas são fatos.
V. Glauber presidente!
Essa última nota é mais simples. Pouco antes de sua morte em 1981, Glauber Rocha chegou a manifestar a intenção de se candidatar à presidência do Brasil, um dado pouco conhecido e que muitas vezes escapa ao senso comum sobre sua trajetória.
Anotação: não sou ingênuo a ponto de imaginar que alguém que me acompanha por aqui desconheça o trabalho de um dos maiores críticos e pesquisadores (entre tantas outras coisas) deste site, o Lucas Baptista. Ainda assim, fica a referência: foram as notas dispersas do Lucas que me inspiraram a divulgar as minhas.



Sobre Glauber duas contribuições: a primeira é que ele tinha esse interesse na presidência mas a princípio tb demonstrou querer ser governador da Bahia (o que me faz ter mais interesse em descobrir como era - ou seria - a relação entre Glauber e ACM).
A segunda, e que infelizmente eu vou ficar te devendo a fonte (tinha baixado e n lembro onde está, mas achei no acervo digital do arquivo nacional), é que tem um dossiê do SNI afirmando que o Ministério da Educação estaria sendo controlado a distância pelo Glauber Rocha, porque um dos membros do ministério teria trabalhado como câmera dele em algum dos filmes (talvez Deus e o diabo). Achei muito gozado um arquivo oficial da “inteligência” afirmar isso, quase confirmando que não tinham ideia do que acontecia dentro do próprio regime.